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Questão de Romantismo e Realismo/Naturalismo — ENEM

Em sua obra ficcional, Machado de Assis constrói narradores que aparentam sinceridade, mas cujas afirmações, ao serem lidas com atenção, revelam o oposto do que parecem dizer. Essa ironia dissimulada exige do leitor uma postura ativa de desconfiança em relação à voz narrativa. Para discutir esse recurso em sala de aula, uma professora de literatura apresentou o seguinte trecho de análise crítica: 'Em Machado, o narrador frequentemente se desculpa por sua própria crueldade, apresenta o vício como virtude e chama de prudência o que é, na prática, covardia ou egoísmo. O leitor que aceitar a superfície do texto sairá enganado; o que desconfiar, encontrará uma radiografia precisa da classe dominante do Segundo Reinado.' A professora então perguntou aos alunos que relação esse recurso estabelece entre narrador, leitor e representação social na prosa machadiana. Considerando a análise apresentada, qual é o papel da ironia dissimulada na construção crítica da narrativa de Machado de Assis?
AA ironia cria uma camada de sentido oculto que expõe os vícios da elite ao leitor atento, enquanto o leitor desatento permanece enganado pela superfície do texto.
BA ironia é um recurso ornamental, sem função crítica, utilizado apenas para tornar o estilo mais elegante e sofisticado.
CA ironia serve para aproximar emocionalmente o leitor do narrador, gerando empatia e identificação com os personagens.
DA ironia machadiana é uma herança direta do condoreirismo romântico, transposta do verso para a prosa.
EA ironia neutraliza a crítica social, pois impede o leitor de compreender os valores defendidos pelo autor.

Gabarito comentado

A ironia dissimulada é um dos recursos mais complexos e sofisticados de Machado de Assis. Ao fazer narradores que mentem com aparência de sinceridade, Machado convida o leitor a questionar cada afirmação e a enxergar por trás do texto os mecanismos de poder, hipocrisia e interesse da classe dominante do século XIX. Esse procedimento torna a leitura crítica indispensável e distingue Machado de seus contemporâneos realistas e naturalistas.

Resolução passo a passo

A análise da professora descreve narradores que apresentam o vício como virtude e a covardia como prudência, afirmando que o leitor desatento sairá enganado pela superfície. Isso define a ironia dissimulada como mecanismo de dupla camada: quem lê criticamente encontra a 'radiografia da classe dominante'; quem aceita o texto na superfície, não. Portanto, a ironia é o instrumento central da crítica social em Machado, funcionando pela desconfiança produtiva do leitor. Dizer que é apenas ornamento ignora sua função estrutural e crítica, explicitada pela própria análise apresentada no enunciado. Afirmar que ela aproxima emocionalmente o leitor do narrador contraria a distância crítica que a ironia estabelece — é exatamente o oposto do que o trecho descreve. Atribuir a ironia machadiana ao condoreirismo romântico confunde dois movimentos e duas estéticas radicalmente distintas: o condoreirismo é passional e grandiloquente, ao passo que Machado é frio e oblíquo. Dizer que a ironia neutraliza a crítica social contradiz diretamente o argumento apresentado, que vê na ironia o veículo da crítica mais eficaz.

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Questão de Romantismo e Realismo/Naturalismo para o ENEM — com Gabarito Comentado | SimulENEM